26/01/2016 // Terça Doce

Sobre verões crônicos

Mesmo quando ele ainda está longe de chegar, há quem, por pura inquietude, logo comece todos os preparativos necessários para que a sua vinda seja a mais satisfatória possível. Quem não gosta fica quieto, na sua, sem medo de que os que gostam, do lado oposto, se sintam no direito de apontar os dedos mais febris de desentendimento. Para quem adora essa época de muito calor e variadas peripécias, basta uma só coisa para que o verão, esse paradoxal amigo que nos causa amor (ou, para uns, leves indícios de animosidade), seja efetivamente completo: a praia. Praia escolhida, verão crepitante, malas prontas, destinos paradisíacos, quiçá, e muitas, mas muitas aventuras gastronômicas na lista de tarefas indispensáveis para a temporada. E se você, com esse cenário exposto, pensou em um banho refrescante combinado com muitos goles de água de coco, peço que, encarecidamente, note que a orgia alimentar que espero conduzir com esse texto é, de fato, muito mais profunda.

356fb9d7f8509d114e0af7d807bb4c99Foto: Bloglovin’/Pinterest

Aos que ficam revezando entre a água de coco geladinha e os pedaços de frutas milimetricamente fatiados, aviso que a verdadeira intenção dessa crônica é, pois, dar voz ao momento orgástico que experimentamos assim que colocamos os nossos pés na areia fofa. Afinal, eu não sei você, caro leitor, mas eu adoro chegar nesse paraíso onde diversos alimentos deliciosos estão ao nosso redor. Sem contar que, entre um e outro coco fresco, tudo parece culminar para que nós, banhistas, fiquemos tentados com todas aquelas açucaradas maravilhas. E atenção: as que estão espetadas no palito são as mais perigosas e viciantes.

a323c6fc14ab6611a7f2e9439f97543cFoto: Boulder Locavore/Pinterest

Os picolés, reis supremos da superfície coberta de areia, são os que aparecem em maior número. Como resistir? Os carrinhos coloridos, as inúmeras possibilidades de sabores, as embalagens vistosas, as diferentes texturas, as incríveis lembranças que evocam… Tomar um picolé na praia está entre uma das mais agradáveis sensações que podemos vivenciar no verão – mesmo quando o vento se intensifica e o picolé escorre pelo seu braço, depois, por suas pernas, até, finalmente, formar uma poça colorida em meio ao bege onipresente.

e4962ad2e01764d5f5eeb3cbd7869a69Foto: Sweet Paul Magazine/Pinterest

E para quem frequenta uma praia há anos, sabe que, entre um guarda-sol e outro, muitas tentações ficam escondidas. A saber: o divertido sacolé (que, para os paulistas, pode ser chamado de gelinho), uma infinidade de balas sortidas, o amendoim coberto com açúcar, a cocada cremosa, e ela, a que, dentre todas essas opções, sempre foi o meu maior vício: a raspadinha. Em tempo: Isabela, minha adorável amiga, se você estiver lendo esse texto, acredite, eu só consigo pensar nos infinitos copos de raspadinha que tomamos em nossa adolescência. Tempo em que, durante qualquer rápida ida à praia do Tombo, no Guarujá (SP), tudo o que gostávamos de escutar era o amigável “Olha a raspadinha, óoooi” – frase proferida pelo simpático vendedor dessa perdição durante o seu percurso pela areia. O gelo picado preenchia quase todo o copo de plástico, o líquido colorido era despejado com cuidado, tingindo com notável prazer aquele glacial conteúdo, e, para finalizar, o vendedor, sempre afetuoso, colocava uma enorme dose de leite condensado por cima daquele gelo. Canudos a postos, goles apressados e muita nostalgia em nossas mentes. E vale dizer que, se tomássemos rapidamente, logo depois de pagarmos, eu e minha amiga Isabela sempre pedíamos por um chorinho de leite condensado no topo. Ah, como era boa essa raspadinha…

e1a870a31ce1f028f3c79bae8b53e094Foto: Honestly YUM/Pinterest

E depois de tantas orgias confessadas aqui, nessas linhas cheias de açúcar, tudo o que posso desejar é que você, assim como eu, tenha muitas memórias afetivas em relação ao verão. Porque a verdade ululante, e que deveria ressoar, é que o verão, com todas as suas características peculiares, foi feito para isso: para que a nossa liberdade se misture à prazerosa diversão. Que essa temporada seja crônica (como sinônimo de duradoura), repleta de guloseimas apetitosas, completamente vivaz, e que, fundamentalmente, seja leve, como o verão deve ser.

Por Renata Barranco

Fotos: Pinterest/Bloglovin’; Boulder Locavore; Sweet Paul Magazine; Honestly YUM; MTL Blog (foto de capa).

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