19/01/2016 // Terça Doce

Explosão de sabores

Sobremesa inesquecível é aquela que faz bagunça. Aquela que, ao sutil toque da colher, suja a toalha de mesa, o balcão da lanchonete e os cantos de nossas bocas. Sobremesa boa é a que lambuza. Aquela que diz “passei por aqui” enquanto os guardanapos tentam remover as suas pegadas. A que escorre pelas mãos com a mesma intensidade que chega aos nossos lábios. A que deixa na língua aquele desejo nostálgico de passado revisitado, e que, de tempos em tempos, reaparece no cardápio imaginário das nossas tentações. Quando há sorvete em sua receita, então, tudo se transforma em um irrecusável convite para que voltemos à infância, época onde os resquícios de doce na ponta do nariz não eram alvo de comentários alheios e impertinentes olhares de reprovação. Sobremesa marcante é aquela que alimenta nossa alma com nostalgia; e, como sempre, o texto de hoje fala justamente sobre isso: nostalgia. A atriz principal dessa história? A banana split, sobremesa com aroma de décadas passadas e de muita diversão ao redor da mesa.

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Simples, porém, nada simplória, a banana split é formada por uma arquitetura suntuosa. Modo de preparo? Corte uma banana longitudinalmente e coloque cada uma de suas partes nas laterais de uma travessa em forma de barco. Depois, basta completar o meio com bolas de sorvete (normalmente, de chocolate, baunilha e morango), que podem variar dependendo do tamanho do recipiente, e decorar com uma calda, chantilly e castanhas ou amêndoas (talvez nozes) cortadas em pedaços. Mais enfeitada do que carro alegórico no Carnaval, lá está ela, opulenta, colorida e tentadora. É claro que você pode colocar o que quiser em sua banana split; e dificilmente irá errar na dose de açúcar, já que, nesse caso, ele é o verdadeiro mestre-sala dessa harmonia. E como começamos a falar de tradição, nada melhor do que irmos diretamente para o vértice desse enredo.

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E se eu te disser que, assim como inúmeras outras sobremesas que analisamos por aqui, nesta coluna doce, a banana split também nasceu em um ambiente um tanto quanto curioso? Pois bem… Hora de revelar o mistério: ela foi criada em uma farmácia. Antes que você comece a bradar palavras de espanto, entenda o caso – lembrando que, claro, como toda história controversa, essa é apenas uma versão de sua origem (a mais aceita, inclusive). Lá em 1904, na Pensilvânia (EUA), em um dia comum de trabalho, o farmacêutico David Strickler, que adorava incrementar receitas de sundae, notou que tinha separado algumas bananas para a sua sobremesa. Eis que, em um relâmpago de criatividade (ou de gula), cortou a fruta ao meio e cobriu as suas metades com bolas de sorvete. Muito perspicaz, não é mesmo?

bananaFoto: Tumblr

Mas você deve estar se perguntando, imagino, por que havia sorvete naquela farmácia. Bom, na época (começo do século XX), acreditem, as farmácias eram locais de lazer onde, dentre outras coisas, e além dos remédios, eram servidos sorvetes, lanches e refrigerantes em seus balcões (sem contar que havia, até mesmo, certa concorrência entre os farmacêuticos, já que cada um criava a sua nova loucura açucarada, que, automaticamente, se tornava o atrativo do estabelecimento). Nessa altura, você pode constatar que David, nosso personagem ilustre, deve ter se dado bem na profissão. Depois de um tempo, como era de se esperar, o sundae personalizado desse nato inventor fez sucesso, até que, finalmente, se popularizou pelos Estados Unidos – e, em seguida, ao redor do mundo.

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Aos curiosos de plantão, mais uma explicação: “split”, em inglês, significa “partido”, “dividido”. O termo, portanto, se uniu à banana, pois a fruta é cortada ao meio nesta sobremesa tão deslumbrante. Há quem diga, também, que a palavra é usada para indicar que esse doce é composto de duas partes principais (sorvete e banana), mas essa versão não me parece nada admissível, já que, convenhamos, o que seria da banana split sem a calda e a farofa de amêndoas? E por puro bom senso simbólico, fiquemos com o termo “split” para designar a banana repartida, sim?

banana splitFoto: Tumblr

Mas regressando ao objetivo principal desse texto, além de divulgar essa interessante história, vamos falar de bagunça. Essa que, em qualquer mero contato com uma superfície lisa, pode provocar a ira de alguns e a diversão de outros. Que esses outros sejam vocês, leitores. E que, entre uma banana split e outra, toda cereja colocada no topo não seja artificial (metaforicamente falando ou não).

Por Renata Barranco

Fotos: Pinterest; Tumblr; e Minimalist Baker (foto de capa).

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