08/01/2016 // Arte

Frida: exposição e diálogos artísticos

Como uma amiga que está sempre pronta para nos abraçar, ela ultrapassa as noções tangíveis de tempo e, ao nosso lado, continua lutando por tudo aquilo que sempre acreditou. Rompeu barreiras impostas, quebrou paradigmas engessados, lutou com garra, superou adversidades das mais distintas, amou como se a vida fosse um mar sem fim e pintou. Pintou como só uma alma livre poderia ter pintado. Foi única. É única. E, no momento, encontra-se como o verdadeiro eixo da megaexposição “Frida Kahlo – Conexões entre mulheres surrealistas no México”, em cartaz até domingo (10), no Instituto Tomie Ohtake (SP). A seguir, como já é de se esperar, minhas impressões sobre a mostra e todas as informações necessárias para quem resolver enfrentar as filas que se formarão nos próximos dias.

(5))Frida_Kahlo_-_Diego_en_mi_pensamiento_(Autoretrato_como_Tehuana)“Diego en mis pensamientos”, 1943, Frida Kahlo.

Como todo amante de voos intensos, Frida, dotada de asas em seu espírito flamejante, deve ser vista, e admirada, como um pássaro que procura por alimento constante. Não há medidas e nem classificações possíveis para designar, após tantos anos, o trabalho visceral de Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón (1907-1954) – mais conhecida como Frida Kahlo -, uma mulher à frente de seu tempo e eterna militante da arte enquanto expressão máxima da realidade. Mas caso você, que está lendo esse texto, não conheça a sua história, ou não tenha o menor interesse em conhecê-la algum dia, recomendo, porém, que não permaneça inerte em relação ao que virá a seguir (nas telas, digo). A ideia é, pois, mergulhar, sendo fã de Frida ou não, nesse mundo que ela tanto quis representar em seus quadros.

Frida-Kahlo-Tomie-Ohtake-Frida-Kahlo_autorretrato-con-vestido-rojo-y-dorado_1941_óleo-sobre-tela_courtesy-of-the-Gelman-Collection_©2015“Autorretrato con vestido rojo y dorado”, 1941, Frida Kahlo.

“Frida Kahlo – Conexões entre mulheres surrealistas no México” conta com a curadoria da pesquisadora Teresa Arcq (em tempo: aplausos, Teresa!) e exibe cerca de 100 obras de 15 artistas nascidas ou radicadas no México. Elas desafiaram convenções por meio do surrealismo de vanguarda – sendo que Frida, como fazia questão de dizer, nunca se considerou surrealista, já que não pintou sonhos, mas sim a sua própria realidade – e abordaram temas como identidade, gênero, corpo, pensamento mágico, o mundo dos sonhos, a maternidade e tantos outros assuntos interconectados. Com o surrealismo, um dos movimentos mais importantes do século XX, como fio condutor, essas mulheres provocaram uma sociedade repressora e, a partir da arte, evidenciaram, em muitas conexões, suas ideologias e afinidades estéticas. Para citar alguns nomes, a mostra apresenta os incríveis trabalhos da inglesa Leonora Carrington, da francesa Alice Rahon, da espanhola Remedios Varo, da fotógrafa húngara Kati Horna, da francesa Jacqueline Lamba, da norte-americana Sylvia Fein, dentre outras.

leonora_carrington_three_women_with_crows_1951_oleo_sobre_tela“Três mulheres com corvos”, 1951, Leonora Carrington.

Na exposição, podemos apreciar cerca de 20 telas de Frida (das 143 que pintou durante a sua carreira), além de 13 obras sobre papel (nove desenhos, duas colagens e duas litografias) e, ainda, trabalhos de outros artistas que a retrataram: na fotografia, para citar alguns exemplos, temos Lola Álvarez Bravo, Lucienne Bloch, Nickolas Muray, Bernard Silberstein e Martin Munkácsi.

Frida-Kahlo“Frida on white bench”, 1939, Nickolas Muray.

Entre enigmáticos autorretratos repletos de simbolismos, mitos (pessoais e sociais), fantasias, sonhos, medos e rituais, a mostra, desde o dia 27 de setembro de 2015, se estabelece como um excelente presente para a nossa cultura. Depois de tanto sucesso, encerra em São Paulo neste domingo, dia 10 de janeiro, com a certeza de que cumpriu o seu papel enquanto difusora artística.

Remedios Varo_Roulotte_1955_oil on masonite_78X60cm_Collection of The Museum of Modern Art of México_© Varo, Remédios - AUTVIS, Brasil, 2015“Roulotte”, 1955, Remedios Varo.

Mas antes de terminar esse texto, enumero algumas observações importantes. 1) Nos dias 9 e 10 de janeiro, sábado e domingo, a exposição estará aberta em horário estendido, das 9h às 20h (sendo que a última entrada ocorre às 19h). 2) Os ingressos podem ser adquiridos no site Ingresse (clique aqui), pelo aplicativo do Instituto Tomie Ohtake, ou diretamente em sua bilheteria (valor: R$10,00 a inteira e R$5,00 para a meia-entrada). 3) Crianças de até 10 anos não pagam – e, sim, há diversas circulando pela mostra e respirando essa mágica cultura; como Sofia, doce e iluminada criança que alegrou, desde a visita que fiz, em novembro do ano passado, a minha vida com sabedoria. 4) Entrando no site do Instituto, você também pode conferir um audioguia da exposição (clique aqui) com sete verbetes bem elucidativos; em sua página do Facebook, enquanto isso, são postados vídeos curtos sobre as artistas e suas inspirações. 5) Depois desse percurso pela terra da garoa e das filas intermináveis, a mostra segue para o Rio de Janeiro e, posteriormente, para Brasília. E então, após todo esse diálogo em prol da divulgação da arte, tudo o que posso dizer a você é: boa viagem (no sentido denotativo e conotativo, que fique claro).

6c4c5111e3“El abrazo de amor del Universo, la Tierra (México). Diego, yo y el senõr Xólotl”, 1949, Frida Kahlo.

Para concluir, um potente recado de Frida: “Cada tic-tac é um segundo da vida que passa, foge e não se repete. E há nele tanta intensidade, tanto interesse, que o problema é só sabê-lo viver. Que cada um o resolva como puder”.

Serviço:
Instituto Tomie Ohtake
Av. Brigadeiro Faria Lima, 201 (entrada pela Rua Coropés, 88)
Pinheiros – São Paulo – SP
Tel.: (11) 2245-1900
www.institutotomieohtake.org.br

Por Renata Barranco

Fotos: Reprodução

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