24/11/2015 // Terça Doce

Sinestesicamente falando

Dia desses, quando pensar sobre as surpresas da vida se torna um deslumbre constante, e acompanhada de mais um pedaço de torta de morango, me senti, automaticamente, transportada para os intensos anos 60, e, tão logo, ‘Strawberry fields forever’, dos Beatles, começou a tocar em minha mente. Associação completamente óbvia, previsível e compreensível – mas, ao mesmo tempo, totalmente sinestésica. Sobre essa viagem, sobre as bagagens sensoriais e sobre todos os prazeres que dedicamos as nossas atenções, um entusiasmado brinde. Ao lirismo que permanece em nós, aos doces que tocam, mais do que lábios, nossas almas, e a toda arte sinestésica que brota em nossos dias. Para essas e outras viagens psicodélicas, como a do rock beatlemaníaco da década de 60, as nossas saudações. No mergulho de hoje, recomendo que escutem bem os seus sentidos aflorados. Isso mesmo: escutem. Eles sussurram, cochicham e gritam de tempos em tempos. Hora de viajar.

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Eis que, para iniciar esse texto, me dirigi ao oráculo, vulgo Google, nosso eterno comandante. Sempre abarrotado de novidades (ou de velhas coisas novas), encontrei, completamente ao acaso, uma citação muito valorosa da escritora, e expoente do feminismo, Simone de Beauvoir (1908-1986). Sobre a sua relação com os doces, assim nos relata: “Eu ficava imobilizada na frente da vitrine da confeitaria, fascinada pela luminosidade das frutas glaçadas, dos reflexos indecisos das gelatinas, da fluorescência caleidoscópica dos bombons”. Claro e definitivo exemplo de sinestesia, não é mesmo? Sem contar que, observem, até mesmo aqui, sem pretender, ao traçar essas linhas, me junto a Simone, ao caleidoscópio imagético, ao movimento psicodélico e a todas essas emoções sensoriais que envolvem o universo dos doces. E nesse emaranhado de linhas afetivas, encontro-me em todas elas.

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Porque só quem, como Simone, fica vidrado em frente a uma vitrine de guloseimas, sabe que, sem mais, nem menos, uma avalanche de prazer pode se formar. Ao contrário dos ditadores de regras de plantão, não existe hora certa para comer um doce; mas há, sim, um momento ideal para ativar as suas lembranças: quando a festa passa a ser do lado de dentro, onde as batidas do coração são ritmadas e cercadas de açucaradas fantasias.

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Lembra-se daquele pedaço de bolo que comeu na festa da escola? Ou daquela torta que só a mãe da sua amiga sabia fazer? E daquele doce que saiu de circulação no mercado? Ou, então, daquele sorvete que tomava depois de sair do colégio, quando a única vontade era apressar o passo para encontrar, finalmente, o confortável sofá de casa…? Lembra-se? Ah, eu me lembro… E como lembro. Recordo-me, até mesmo, dos áureos dias em que, sob a ótica das crianças, nos divertíamos com as surpresas que determinados doces carregavam. Doce infância…

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Aos que ainda permanecem ressabiados, em virtude daquele suspeito receio de mergulhar sem as seguras boias no mundo da magia, um recado: com a sinestesia, meus caros, a vivacidade encontrada em pequenos detalhes se torna mágica. Inseridos nesse espetáculo circense sem controle, provamos doces com os mais diversos sabores e, além disso, com inúmeras texturas, já que o vermelho de um morango pode ser quente, vibrante, ardente e nunca deixa de ser sensual (e sexual). De erotismo, pois, nos cercamos. Cerquemo-nos, então, de mais sensações orgásticas: o chocolate derretido que escorre por entre os dedos, a geleia que mancha os lábios e tinge nossas línguas, o sorvete que desliza na casquinha impetuosamente, o suor da taça gelada de pavê que nos acalma em dias quentes, o fulgor da gelatina que reflete em nossos olhares desejosos. Sinestesia!

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Parafraseando o grande Carlos Drummond de Andrade, vale dizer que o nosso prato predileto sempre será “a vontade de comer” – e, claro, de viajar pela órbita sinestésica que habita em todos nós. Um brinde ao… ao próximo tilintar de copos – ou de taças, de xícaras, de cafés cobertos por doce de leite, de… Ah, sinestesia!

Por Renata Barranco

Fotos: Pinterest (Ilustrações: Nathalie Amber)

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