27/08/2015 // Momento cultural

A musicalidade do Tango Canyengue

O abraço estreito, as faces encostadas, os corpos em sintonia, as batidas do coração no ritmo da música, o riscar dos sapatos no salão, o perfume compartilhado entre os dançarinos, os olhos cerrados, a respiração que, em muitos momentos, se faz ofegante, a indicação dos primeiros movimentos, a marcação ritmada e crescente, os pés que se tocam, as mãos que se acarinham, a atmosfera de sensualidade que domina o ambiente, a ilusão completamente real de que se está levitando. A música acaba, a alma, mais uma vez, entra em estado permanente de festejo. E cada vez que essas sensações percorrem a sua vida, uma constatação se faz necessária: a linguagem do tango, finalmente, tomou conta do seu corpo por completo.

Se vamos, então, estudar um ritmo tão multifacetado quanto o tango, temos, sem dúvida, que começar em suas origens para vislumbrar toda a evolução da dança. Na matéria de hoje, mergulharemos no estilo Canyengue, que representa, essencialmente, os primórdios do tango. Lembram-se da aparente tristeza e seriedade que muitos notam em uma apresentação de tango? A partir de agora, é melhor esquecerem tudo isso, pois a alegria que o Canyengue proporcionará está apenas começando…

Milonga-en-Avenida-de-mayoMilonga nas ruas de Buenos Aires (1913)

Antes de tudo, vamos, eu e vocês, queridos leitores, deixar algo claro: esta matéria, como todas que postamos aqui na Valentina, busca um resgate de um passado que, para nós, eternos nostálgicos, está muito presente (e latente). Nadar, então, na cultura do Canyengue será – mais do que estudar linguagens ainda voltadas para um público familiarizado com a prática de bailar – uma experiência muito prazerosa e, claro, com o intuito de divulgar essa cultura tão rica e importante. Felizmente, tenho contato com esse universo, e desde que fui (com a licença poética que me é permitida) “seduzida” por esse estilo, só encontrei mais e mais motivos para dividir essas histórias com vocês. E antes que fiquem com extrema curiosidade, vamos estabelecer algumas características do estilo Canyengue, originalmente dançado nas cercanias de Buenos Aires: o abraço dos dançarinos é lateral, onde todo o tronco (e, principalmente, o centro do corpo) deve estar em plena conexão; as mãos entrelaçadas ficam na altura da cintura; e os joelhos são mais flexionados (para dar liberdade e agilidade aos movimentos). Se pudéssemos associar algumas palavras a este estilo, elas seriam as seguintes: confiança, intimidade, musicalidade e sensibilidade.

E mais singular ainda é perceber que, desde as chamadas “fases de ouro do tango”, o ritmo tem, mesmo com raízes bem definidas e fortes (e com datas ainda imprecisas), se reinventado. Dos anos 20, onde Carlos Gardel e Azucena Maizani venderam muitos discos e difundiram o tango para fora da Argentina, aos anos 40, onde Astor Piazzolla e Aníbal Troilo (para citar apenas alguns nomes) se juntaram aos consagrados Francisco Canaro (que, segundo alguns estudiosos, iniciou a “primeira etapa” do Canyengue, antes dos anos 20) e Carlos di Sarli – isso sem contar a popularidade de Juan d’Arienzo. Do Canyengue ao chamado Nuevo Tango, da postura mais ereta do tango europeu ao estilo mais milonguero, uma coisa é certa: o tango é irrepetível, e possui combinações infinitas de passos e sensações. Por ser infinito, inclusive, é que se torna tão especial e apaixonante.

Mas voltemos ao Canyengue. Importante, neste momento, dizer que, em 2002, foi criado o MoCCA (Movimiento Cultural Canyengue Argentino), com a ideia de difundir essa cultura ao redor do mundo. Dentro desse movimento estão, por exemplo, Roxina Villegas e Adrian Griffero, e “El Gallego” Manolo, aclamados mundialmente pela notável dedicação ao Canyengue. Mas para quem estava achando que nós, brasileiros, estamos de fora dessa festa, é hora de comemorar (e de aplaudir com louvor): Maria Aurea Elias e Junior Abreu, representantes do MoCCA no Brasil, inspiram a todos não só pela difusão dessa cultura, mas em virtude da sintonia com que caminham pelo salão.

foto junior 2Maria Aurea e Junior Abreu em apresentação no Café Piu Piu (SP) – Foto de Elisangela Cardoso

Nas aulas práticas ministradas por Junior Abreu, e durante as conversas que tive com ele e com Maria Aurea, que dançam Canyengue juntos há aproximadamente 10 anos, fui presenteada ao ouvir muitas histórias permeadas pelo enorme conhecimento compartilhado entre os amantes dessa arte. Maria Aurea, aluna de Junior há 13 anos, me disse que “por ter uma batida forte e ritmada, o Canyengue abre espaço para muita musicalidade”. Musicalidade, por sinal, e segundo a própria dançarina, é a maior característica do seu professor: “o Junior é muito musical e criativo; ele faz uma mistura do Canyengue com outros elementos do tango, e, por isso, acabou se diferenciando no estilo”.

O andar mais cadenciado (que nos remete à própria origem da palavra “canyengue” em afro, que significa “andar com cadência, ou elegantemente”) é marcante durante uma apresentação dos dois. Junior, em aula, até brinca com essa origem e com todas as lendas e histórias que fazem parte dessa cultura. E ponderou, certa vez, dizendo que “toda pessoa que dança tango deveria estudar, também, o Canyengue”. Com essa inserção no ritmo, a dança será mais livre, informal e sem a preocupação coreográfica (e plástica) do tango de salão que estamos acostumados.

foto juniorMaria Aurea e Junior Abreu – Foto de Rubens Macedo

Em recente passagem por Buenos Aires, Junior e Aurea apresentaram um Canyengue na Milonga Porteño y Bailarín, ao som de Juan d’Arienzo e rodeados pelos mais renomados tangueiros. Resultado? Aplausos efusivos por todos os lados. E como já era de se esperar, puderam levar, com muita alegria, esse estilo mais brincalhão, descontraído, desestruturado e livre de sequências coreográficas para a admiração de todos os presentes – e para aqueles que também sorriram (assim como eu) ao ver o vídeo dos dois dançando, que foi divulgado em uma rede social repleta de amigos que os saudaram.

Dito tudo isso, um aviso para quem ficou interessado no estilo: teremos um encontro de canyengueros nesse sábado, dia 29, em São Paulo. Anote, abaixo, todas as informações:

Aula e prática de Canyengue, com Junior Abreu e Maria Aurea Elias
R$: 25,00 por pessoa
Data: sábado (29 de agosto)
Horário: das 16h às 19h
Local: Espaço Mário Marzana
Endereço: Praça Ministro Fagundes de Almeida, 34 – Ipiranga (SP)
Tel.: (11) 2061-7676

Aguante el Canyengue!

Por Renata Barranco

Agradecimentos: Sueli Martins, pela sugestão de pauta; Maria Aurea Elias e Junior Abreu, pela inspiração e confiança em meu trabalho; e Moacir Castilho, pela brilhante pesquisa histórica que me auxiliou a fazer essa matéria.

Fotos: Reprodução; Elisangela Cardoso; e Rubens Macedo.

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