09/12/2014 // Terça Doce

Brasileira com samba no pé

O hambúrguer não nasceu nos Estados Unidos, o pão francês não é uma criação vinda da França e, pasmem, a torta holandesa nem é conhecida na Holanda. O processo de identificação de algumas receitas faz com que muitos consumidores fiquem um tanto quanto confusos em relação às suas origens. A comida, dessa forma, também cruza fronteiras e, normalmente, se reinventa e adquire sotaques dos mais variados. Nesta coluna, antes de qualquer outra coisa, temos a missão de levá-los às teorias (veementes ou não) mais próximas acerca da história dos doces que tanto nos fazem salivar. Para hoje, veremos a torta holandesa, sua irmã alemã e os mitos infundados que surgiram a seu respeito.

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Essa torta, admito, foi uma das sobremesas que mais pedi durante toda a minha vida. Sou bastante viciada em biscoitos com cobertura de chocolate; ou seja, cada garfada nessa sobremesa me leva, irremediavelmente, à conquista suprema: deixar o biscoito decorativo para o final e comer toda a torta primeiro. Daqueles desafios ilógicos (na verdade, bem criteriosos) que fazemos frequentemente – como deixar sempre o pedaço mais suculento, recheado (ou qualquer outro adjetivo) para o final da refeição. Quem faz isso sabe bem do que estou falando – e aí, como sempre, um amigo resolve lhe pedir um pedaço e morde exatamente aquele território que você tanto estava reservando para o final apoteótico de explosão de sabor, não é mesmo?

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Mas antes da origem, uma explicação: muita gente, ainda mais dependendo da região do país, confunde a torta holandesa com a torta alemã. O que acontece, invariavelmente, é que, em algumas docerias ou estabelecimentos, elas são comercializadas sem distinção. Já comi muita torta holandesa com cara de alemã e vice-versa. A “diferença” é sutil e estética por excelência: a torta alemã (ou pavê alemão) leva um creme à base de manteiga, açúcar, creme de leite, gemas batidas e biscoito maisena (que vem intercalado ao creme final). Já a holandesa, que tem uma base de biscoitos e outra de creme, costuma ter os biscoitos cobertos de chocolate em sua lateral, como enfeites, e, normalmente, é feita a partir de um creme com leite condensado e gelatina incolor, para deixá-la mais firme. Mas, como podem ver nas fotos desta matéria, há muitas tortas alemãs meio híbridas, com o creme de manteiga, os biscoitos no meio e também aqueles que aparecem na lateral da torta holandesa. Portanto: não se preocupe tanto com a nomenclatura e seja feliz saboreando essas tortas-irmãs por aí.

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Onde ela nasceu, então? Em Campinas, São Paulo! A receita foi criada por Sílvia Leite, em 1991, que, na época, era proprietária de um café no centro de Campinas. Sílvia deu o nome de “holandesa” à torta em virtude do tempo em que passou na Europa e para homenagear uma família holandesa que conheceu quando morava em Londres. Lá na Holanda, por sinal, eles nem sequer imaginam que ela exista e que faça tanto sucesso, até hoje, por aqui.

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Na hora de escolher a sobremesa, fique, pois, com a imaginação apurada e peça aquilo que deseja, sem culpa de parecer uma criança afoita pelo doce mais colorido da vitrine. Agora me ajudem: sou só eu que vejo a imagem quase fiel de um pandeiro pronto para tocar um sambinha em uma torta holandesa intacta? E se a sua mente também dá essas piradas eventuais, por favor, sinta-se em casa nesta coluna doce que tanto nos alegra no começo da semana.

Por Renata Barranco

Fotos: Pinterest

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