27/10/2014 // Arte

O tímido Pierrot

O meu último post na Valentina Mag será dedicado àquele que é um dos meus quadros favoritos na História da Arte: Pierrot (ou Gilles), de Jean-Antoine Watteau. O conheci há alguns anos, durante a minha primeira visita ao Louvre. Na ocasião, tive a imensa sorte de ter os estudantes da École du Louvre comentando as obras nos pavilhões. A proposta, aparentemente, era a de mostrar aos visitantes a parte menos visível do acervo.

pierrot - valentinamag

Dentre os quadros que me foram apresentados está Pierrot, a figura de um jovem ator caracterizado como a personagem da comedia dell’arte, que disputa o amor de Columbina com o rival Arlequim. No imaginário popular, é o palhaço triste, frequentemente retratado com uma lágrima escorrendo pelo rosto.

pierrot painting

Neste quadro, além de Pierrot, estão pintados, ao fundo, outros quatro personagens: o doutor (com o seu burro), os innamorati Lélio e Isabella, e o capitão. Todos, aparentemente, engajados em alguma cena.

pierrot - sapatos

Mas Pierrot está separado deles, estático e comicamente vestido, como sugerem os laços nos seus sapatos. Daí, percebemos que, diferentemente dos demais, ele não está atuando!

pierrot zoom

Do seu rosto emana uma expressão constrangida, tímida e triste, pois se sente exposto ao ridículo, como suas mãos parecem indicar, sugerindo que ele tampouco está protegido pela cortina do teatro. Então, a empatia se sobrepõe ao humor, naquilo que eu acho o aspecto mais fascinante da obra.

Sabe-se quase nada a respeito desse quadro, sobre quando foi pintado, quanto tempo demorou para ser concluído e quem é o ator retratado. Supõe-se, contudo, que o pintor e o modelo morreram pouco tempo depois, ambos vitimados por pneumonia.

Jean-Antoine Watteau.-valentinamag

Se isso for mesmo verdade, acredito que a obra possa ser interpretada como uma reflexão sobre a vulnerabilidade da vida, à qual estamos todos, involuntária e incomodamente, expostos.

Por Eduardo Marques

Fotos: Pinterest

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