29/09/2014 // Valentina na Cidade Luz

A vitalidade do Museu d’Orsay

Localizado em um dos quartiers mais valorizados de Paris, o Musée d’Orsay é, a meu ver, o único museu parisiense capaz de rivalizar em popularidade com o Louvre. Trata-se de um museu muito novo, inaugurado em 1978, como forma de dar utilidade a uma antiga gare, construída para a Exposição Universal de 1900 (a mesma que legou a Torre Eiffel à cidade), e que estava ameaçada de demolição para a construção de um hotel.

orsay frente

Diferentemente da maioria dos grandes museus (como o “rival” Louvre), que constrói o seu acervo em torno de obras representativas de quase toda a história da arte, o Orsay se concentra em uma única época, compreendida entre a segunda metade do séc. XIX e o começo do séc. XX. Ou seja, trata-se de um museu dedicado a um dos momentos mais profícuos da produção artística mundial, cobrindo movimentos que vão do romantismo ao cubismo. Mas é na coleção impressionista e na neo-impressionista que ele conquista o visitante.

orsay dentro

Tenho particular predileção pelo impressionismo. Movimento artístico que nos legou nomes como Monet, Renoir, Gauguin e Van Gogh, foi responsável pelo rompimento da arte com a rigidez academicista das escolas de Belas Artes, abandonando o enclausuramento dos ateliers. Assim, passaram a se instalar ao ar livre, para melhor captar as sensações visuais da paisagem, suas cores, luzes e efeitos, cheios de vida, paz, harmonia e beleza.

No campo da técnica, pintavam diversos quadros em sequência, de modo a materializar as sensações efêmeras que lhes acorriam ao admirar a paisagem, ainda que em prejuízo da forma precisa, o que lhes rendeu a alcunha de “impressionistas”.

orsay quadro

Do acervo exposto no Orsay, gosto particularmente de Le Bal du Moulin de la Galette, de Renoir. Trata-se de uma obra famosa pelos efeitos de luz e sombra em ambientes externos. Mas o que mais me chama a atenção é o olhar dos personagens. Eles nunca se cruzam! Todos estão olhando – diria, com interesse – para alguém que, por sua vez, olha outrem. Entendo, portanto, que o quadro nos fala sobre o amor à vida, à liberdade, à jovial falta de compromisso. Todos me parecem estar buscando – e vivenciando -, simplesmente, o prazer individual meramente egoístico.

orsay clock

Sabendo-se que os impressionistas foram ignorados pelos acadêmicos de sua época, relegando-os ao desconhecimento e à pobreza, penso que Renoir exponha aqui o enorme prazer individual que sentia ao pintar os seus quadros, livre das regras impostas pelas escolas de Belas Artes, ainda que não tenha tido, por isso, o seu talento reconhecido em vida, da mesma forma como os seus personagens tampouco tiveram os seus anseios correspondidos.

Por Eduardo Marques

Fotos: Pinterest

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